3 de fevereiro de 2017

Essa vida não vai mais me escapar...

Foto: Divulgação/Montagem: Pira Rural
Salve amiguinhos!!

Sexta-feira, dia de lançar novidades aqui sobre o Pira Rural!! E o anúncio de hoje não poderia ser diferente: Cuscobayo volta trazendo o chegueden pra animar a Cascatinha!!

Com um EP e um disco completo na mochila, depois de inúmeros shows por diversos estados e também um rolê nos hermanos argentinos em 2016, eles estão voltando ao palco Ricas Abóboras!

Pra galera que curte, eles vem trazendo todos os itens de banquinha deles: discos, adesivos, camisetas, e aquela empolgação de sempre!!!

A seguir, um belo texto sobre a banda! Curte aí..


CUSCOBAYO - GUIA DO MOCHILEIRO SULAMERICANO
por Douglas Ceconello

Somos um caleidoscópio copero y perturbador de circunstâncias, mas somos, antes de mais nada, o chão em que pisamos. Somos o chão em que pisamos, onde criamos a maioria dos calos e rachaduras que contam sobre nosso próprio caminho, e também o chão ao redor, aquele que ainda pisaremos, onde daremos nossos próximos passos e bailaremos os próximos compassos, alegres ou angustiados. Onde devemos pisar não com temor, e sim com respeitoso sentido de desbravamento, pois é chão já pisado por outros pés igualmente calejados. Clandestino na minha terra, sou local em qualquer parte.


Ao contrário das fronteiras geográficas, as fronteiras culturais são móveis e se esticam entre o Pacífico e o Atlântico ao sabor do nosso encantamento e senso de identidade, obedecendo apenas à indomável cartografia que nossos pés se dispõem a rascunhar. Buscar a alegria não é tornar a vida mais macia ou tentar amaciá-la À FORÇA, desviando a mirada de seus cenários mais sombrios. A vida começa depois do desespero, e é justamente aí que aprendemos a caminhar. E, logo depois, a dançar em meio ao caos. Quando começamos a desconfiar de Deus, inventamos a música. Participar de um show da Cuscobayo é como dançar em meio ao incêndio sem ignorar a presença do fogo. Simplesmente porque há um chão que precisa ser pisado. Herdamos dos africanos que também fomos e somos a dança que se volta ao coração da terra, então tanto melhor tirar o chinelo para tornar-se parte do próprio chão, é o que nos confidencia ao pé do ouvido e no tímpano do tornozelo o chegueden cuscobayense. Porque a raiz também se espalha. Um punhado de terra eu guardei pra viajar.

Certa vez, errando pelas milongas vida, acabei dividindo a mesa com uma guria de TAIWAN que estava passando cinco meses em Buenos Aires em função do tango, sem falar sequer uma palavra de castelhano. Já sentindo o calor soporífero da cerveja e também um pouco DESAHUESADO pela noite maldormida, nos comunicamos com um inglês que parecia emergido de um liquidificador pré-histórico, e assim a charla transcorria cambaleante, mas relativamente fluida, até que resolvi perguntar o que, afinal de contas, ela estava achando da cidade, ao que ela concedeu um segundo protocolar de espera para então estalar embaixo da língua a palavra-senha que parecia pronta há séculos, apenas esperando que algum interlocutor solícito servisse de gatilho. Ela respondeu: WILD.



Diferente de sua terra natal, onde impera a organização e o senso de responsabilidade, lhe assustava o caos impregnado nas ruas da América do Sul, a gritaria, o lixo nas calçadas, as sirenes, se é preciso fazer algo, a gente até faz, mas se não der, também não tem problema, depois a gente vê, e mesmo assim as pessoas parecem felizes nas ruas, se abraçam, falam alto. Ainda assim, quem sabe justamente por isso, ela permaneceu, talvez para sempre. A nossa miséria em parte é nosso tesouro. O que ela identificou como selvageria talvez seja também o reflexo de uns olhos faiscantes e dos abraços aleatórios e inadiáveis. Somos a urgência. Um ganido que escapa. Cusco de rua em cancha reta. O uivo declamado em alguma esquina do Barrio Sur por um Allen Ginsberg pardo de Tacuarembó, cortado na alma por alguma llamada de outubro.

Somos guitarra, cajón e cuíca. Somos noches en boliches, cotovelo no balcão do bar, agua hirviendo em los balcones. Ginebra, caipira e vinho da colônia. Somos candombe, baião e milonga. Dúvida, âncora ou foguete. Arquibancada, murga y carnaval. Somos Restinga, Barracas e Rocinha. Somos moinhos que não estancam. Somos a esquina entre Freeway e Libertador, rota de chão batido, Chevettes e carroças. Mão suada no alambrado, o alento e o pranto. A fúria, o vento e a sede. Leblon e Pernambuco. Parrilla, mondongo e polenta. O eco que se ouve no pampa e o silêncio que assalta a cidade.

Em suas andanças, ensaios e bailongos entre Caxias do Sul e Porto Alegre, a Cuscobayo acabou descobrindo e descortinando o próprio sul da América através de um som e de uma postura que o representam com espírito livre e brutal honestidade. Barrillete cosmico descendo a Serra, rumo aos confins da planície, do charco e da Cordilheira. De peito aberto para o campo, o Prata e a cidade, apropriando-se de uma cultura que é nossa, que depende deste chão que é vasto e se expande – cultura diversificada e mutante que vagueia sem passaporte, ignorando territórios nacionais. Vamos fazer a faxina que a cidade é nossa. A cidade, neste caso, é o próprio continente.

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